SINAIS DE ESPERANÇA EM TEMPOS SOMBRIOS

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         A realidade atual (social e política) brasileira descortina um cenário de tímidos otimismos. Escassas e em extinção, as políticas públicas não conseguem atender as demandas que brotam, visto a indiferença que as faz sucumbir. Necessidades como a fome, quando não atendidas lançam o ser humano em um pântano de sofrimentos e desencantos. São dilaceramentos que ferem a dignidade, e que parecem conduzir o ser humano a um estado de adormecimento, de sonolência, de enfraquecimento.

            Simone Weil, filósofa francesa que viveu de 1909 a 1943, durante sua experiência como operária em algumas fábricas observa que a opressão vivida pelo trabalhador ao invés de gerar a revolta, a revolução, causava docilidade, mansidão. Diz ela em seu Diário de Fábrica: “Uma opressão evidentemente inexorável e invencível não gera a revolta como reação imediata, mas a submissão.”[1] (WEIL, 1951, p. 96). Conforme Simone Weil observou, os operários oprimidos pelas violências impostas pelo trabalho de então se tornavam submissos, obedientes às ordens que regulavam os seus trabalhos, em silenciosa resignação. O sistema opressor age de forma controladora, impedindo que haja tempo e energia ao trabalhador para pensar, ter consciência de sua situação e reagir. Ter condições dignas para desenvolver o pensamento é fundamental para pensarmos transformações à realidade de desigualdades e injustiças que vivemos. Para Simone Weil é por meio do pensamento que acessamos a liberdade.

            Diversas são as formas de opressão e violência vividas atualmente pelo ser humano. A exemplo da opressão vivida na fábrica, vemos atualmente a opressão causada por meio da falta de acesso à alimentação, ao trabalho, educação, saúde. Essas faltas, essas ausências infringidas ao ser humano lhe roubam a dignidade, lhe enfraquecem e lhe doem como injustiças reais que são. Estas injustiças atualmente agem no ser humano como a opressão nas fábricas agia nos operários de então. Perante as privações, violências que lançam o ser humano ao sofrimento agudo, o exercício do pensamento se torna penoso. O exercício do pensamento se torna difícil para quem sofre diariamente a fome, o desemprego, a falta de um lar, a falta de acesso à educação, à saúde, à uma vida de condições e possibilidades dignas. Um povo impedido de pensar pode se tornar escravo de quem detém o poder e tiranicamente mantém o controle.

            Diante de tal cenário, existem questões latentes que precisamos responder, como por exemplo: quais aberturas, quais mudanças precisam ser feitas para que a dignidade do ser humano seja garantida, de forma que não lhe faltem condições básicas para viver, e viver pensando criticamente o seu presente, para refletir e agir visando uma realidade com menos desigualdade social? Qual é a nossa responsabilidade diante de um país que parece adormecido perante o próprio caos?

            A sociedade civil e suas organizações são exemplos de resistência e corajosos esforços para que algumas dores sejam amenizadas e algumas transformações possam ocorrer. O Centro Infanto Juvenil Monteiro Lobato está dentre estes espaços geradores de transformação social, e que vem atuando na tentativa de levar alento às necessidades do corpo e da alma de quem vive este cenário de injustiças e sofrimentos. A Pedagogia do Amor, inspirada em São Leonardo Murialdo, padroeiro da instituição, realiza com as crianças, adolescentes e suas famílias aquilo que o poder público insiste em não reconhecer: o amor. O amor enquanto responsabilidade social, comprometimento para com o outro, atitude ética que possibilita conectarmo-nos e transformarmos a realidade atual tendo em vista o bem comum. Ainda que estejamos vivendo inúmeros desafios neste tempo, incluindo o descaso político perante as maiores necessidades do ser humano, é necessário nutrir a coragem e a esperança. É preciso encontrar parcerias que fortaleçam nossa luta contra a injustiça nas suas mais variadas manifestações.

            O Centro Infanto Juvenil Monteiro Lobato mantém, desde o ano 2000, em parceria com a Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia, o Núcleo Murialdo, que fica situado na Vila Bita, Restinga, periferia de Porto Alegre. A partir de 2011 o C. I. J. Monteiro Lobato firmou convênio com a Prefeitura de Porto Alegre para o atendimento de 40 crianças no turno inverso à escola, em Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. As demandas da Vila Bita destacam-se e enumeram-se (a exemplo de tantos locais pelo Brasil afora), fazendo da comunidade um local onde a ausência de desigualdade social ainda é uma realidade distante e um desafio a ser enfrentado. A comunidade convive com a presença do tráfico de drogas, com ruas sem calçamento, falta de saneamento básico, falta de energia elétrica regularizada em várias casas, além de um lixão à beira de um córrego, que expõe as crianças neste cenário insalubre.

            Com grande dificuldade o espaço do Núcleo Murialdo tem se esforçado ao longo desses 22 anos para oferecer um atendimento de qualidade às crianças, adolescentes e suas famílias, buscando ser também e inclusive um solo fértil onde sonhar seja possível. Considerando-se apenas o repasse do convênio com a Prefeitura, via Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC), não é possível oferecer o atendimento desejado de cuidados permanentes com alimentação, manutenções do espaço físico, materiais pedagógicos, além de contratação de alguns profissionais necessários ao serviço como psicólogos e assistentes sociais. Por isto as parcerias são importantes, e muitos benfeitores contribuem responsavelmente atenuando as lacunas deixadas pelo poder público.

            Importante lembrar que o gesto de voluntários benfeitores não exime a responsabilidade que é própria dos representantes políticos que estão no poder. Neste sentido queremos destacar alguns exemplos em que podemos identificar a política sendo exercida como de fato deve ser, servindo ao povo e suas necessidades. Em um cenário de tímidos otimismos, como foi dito, é fundamental identificar e saber que nem só de políticos corruptos e individualistas nosso país está composto.

            Especificamente na cidade de Porto Alegre destacamos e agradecemos o trabalho ético realizado para o povo como verificamos, dos vereadores Engenheiro Comasseto, Roberto Robaina, Marcelo Sgarbossa e Jonas Reis. Estes vereadores, conscientes das demandas do Centro Infanto Juvenil Monteiro Lobato, colaboraram com a instituição por meio de emendas parlamentares. Foi devido ao uso correto do orçamento público, indicado por vereadores como os que citamos, que muitas crianças, adolescentes e suas famílias, através do C. I. J. Monteiro Lobato estão conseguindo acessar direitos e melhores condições de desenvolvimento.

            O Núcleo Murialdo, por exemplo, foi beneficiado com 12 notebooks, via indicação do vereador Roberto Robaina. A partir de tal responsabilidade política, aproximadamente 45 crianças e adolescentes agora podem contar com oficina de informática, e assim com a ampliação de um mundo de possibilidades que antes não havia. Este acesso à tecnologia e seus benefícios servirá de alavanca no desenvolvimento educacional, humano e social do público contemplado. Ainda em gestação a instituição pensa outros projetos que tornem a tecnologia acessível também às famílias das crianças atendidas.

            Ainda que este tempo nos apresente cenários não tão otimistas, é preciso estarmos atentos e vigilantes para os pequenos sinais de esperança que se manifestam... seja por meio da sociedade civil e seus esforços, seja por meio de representantes políticos comprometidos com as necessidades do ser humano. Com instrumentos adequados, acessando a educação, o ser humano pode desenvolver o pensamento, o conhecimento (de si, dos outros e do mundo que o rodeia). E desta forma, como afirma Simone Weil, por meio do pensamento o povo acessará a liberdade. E um povo livre, nenhum governo tirânico conseguirá controlar e oprimir.

 

[1] WEIL, Simone. La condition ouvrière. Paris: Gallimard, 1951, p. 96. Cf. texto original: “Une oppression évidemment inexorable et invincible n'engendre pas comme réaction immédiate la révolte, mais la soumission.” (tradução nossa).

Texto:  Ana Lúcia Guterres Dias

(Coordenadora do Núcleo Murialdo / Mestra em Filosofia)